A necessária Maria da Conceição Tavares incorre num erro sobre marxismo e comunismo… (ANOTAÇÃO)

(ANOTAÇÃO -) A necessária Maria da Conceição Tavares, cujo legado combatente ora se reacende entre jovens brasileiros contra os direitismos liberais, liberalóides e correlatos até piores ou travestidos disso, incorria em um equívoco constante em suas aulas no que se refere ao marxismo. Aliás, eu, que sou jovem, afirmo que seria mais efetivo a esses jovens (e ao próprio PT – Partido dos Trabalhadores) terem antes se aprofundado em Caio Prado Jr. e em Florestan Fernandes (que chegou a ser deputado pelo PT, enquanto o primeiro foi quadro heterodoxo do PCB), dois enormes e considerados marxistas de obra incontornável, do que somente em Tavares, cuja carga reformista leva a conhecidos impasses históricos no plano institucional insatisfatório e não permite espaço para a construção revolucionária estrutural e de massas entre o povo trabalhador. O marxismo sem dúvidas fez parte de sua formação econômica desde cedo — os principais matemáticos portugueses eram marxistas, sobretudo os exilados — junto a dois outros posteriores, os chamados “nacional-desenvolvimentismo” e “keynesianismo”. Tal equívoco — que parece ser a sua única ressalva ao marxismo junto a qualquer paixão revolucionária exacerbada e pouco realista dentro da luta política imediata — refere-se à afirmação de que o fim da sociedade baseada na exploração entre classes ou a abolição da divisão de classes seria idealismo ou utopia. (Quando, na realidade, aquele que só é reformista é ingênuo ou conivente, sobretudo no Brasil e neste continente, em que a revolução pode ser contingente, mas a contrarrevolução é sempre certa de vir, conforme a história ensina, mesmo contra meros reformistas!…) Bem, a própria Tavares, findo o dito “socialismo real”, autodenominou-se como socialista utópica em entrevistas, a “utopia” aqui em sentido positivo enquanto estímulo e horizonte. O equívoco apressado — e não basta exatamente a filosofia para tal estudo — está em caracterizar essa defesa ou vislumbre como idealismo, sendo que, antes de mais nada, seria preciso um aprofundamento antropológico específico (e materialista). Falo do comunismo primitivo, primeiramente, considerando o quanto as diferentes sociedades primitivas eram ou não estratificadas. Esta é uma questão científica ainda não totalmente detalhada. Em O Capital, Marx cita lateralmente comunidades peruanas antigas baseadas na propriedade comum, um exemplo de cordão umbilical com o comunismo a ser construído na sociedade pós-industrial e a partir dela, com características próprias e modernas, não significando um retorno histórico meio rousseauniano, mas avanço ao reino da liberdade. É certo que Engels, em seu A Origem da família, da propriedade privada e do Estado, parte dos estudos pioneiros de Morgan, que, no entanto, com o avanço mais moderno da antropologia, foram desmistificados em pontos que, justamente, não consideravam o quanto certas sociedades primitivas eram estratificadas de fato. De qualquer maneira, para variados estudos antropológicos marxistas sérios dos últimos dois séculos — de Gordon Childe a Sergio Lessa e outros –, vários povos e sociedades, por não apresentarem escravismo nem excedente (uma vez que consumiam o que eles próprios produziam) e tampouco ainda negociarem com outros povos, eram sociedades comunistas. Sem qualquer “romantismo” ou idealismo a respeito. Há quem não tenha cautela em citar também os exemplos quilombolas, comunitários, mesmo indígenas, etc., guardadas as enormes proporções, desigualdades e diferenças (inclusive tecnológicas) entre cidade e campo, que devem ser mitigadas (sobretudo as desigualdades socioeconômicas) na proposta comunista. Basta pensar, ainda, na harmonia democrática e coletivista das cooperativas trabalhistas de teor revolucionário sem a figura do patrão/capitalista, logo sem mais-valia, em que pese o fato de certas experiências validarem a contingência. A própria contingência não justifica pensamento contrário duma construção com base no real, e tampouco experiências do passado anulam a construção do presente e o futuro. Isto é, o fim da sociedade de classes não é mera utopia ou idealismo, necessita de estudos pretéritos, presentes e futuros que certamente não são fáceis. Marx (cf. a Crítica do Programa de Gotha, em que evoca o lema comunista A cada um conforme sua necessidade, de cada um conforme sua capacidade) e sobretudo Engels (em Anti-Dühring) engendram tais exemplos históricos para a sua teoria revolucionária seminal baseada no fato de que, conquistado pelos detentores das forças produtivas (classe trabalhadora) o poder e expropriados os expropriadores burgueses a fim de que a sociedade se apodere dos meios de produção antes concentrados e particularizados e monopolizados, o Estado-coerção (termo posterior de Gramsci), a mercadoria capitalista, a acumulação e a divisão de classes e seus resultantes perdem gradual sentido, caducam, tanto quanto outras formas políticas e socioeconômicas anteriores, bem estabelecidas por milênios, caducaram e mudaram (conclusão indiscutível), portanto isto é plenamente possível em termos históricos e materialistas, embora não de maneira simplista. Para citar um dos muitos obstáculos (neste caso, do maravilhoso apagamento comunista entre fronteiras sob o elo proletário e da humanidade, e decisivo para qualquer êxito socialista grandioso), está o fator global e axiomático de que revoluções nem sempre são mundiais, mas localizadas, além das diferenças entre os capitalismos “dependente” e “hegemônico” na correlação de forças entre os países, e as lutas de classes internacionais, além das nacionais. Daí a vigência atual para nós do único mandamento de Marx (presente no Manifesto Comunista): Trabalhadores do mundo, unam-se!

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