Apontamentos estéticos para uma poesia/proesia do século 21 (esboço)

Texto em progresso…

 

  • Lukács (Conversando com Lukács, Instituto Lukács, São Paulo, 2014, p. 51), em seus anos finais, disse ser “apaixonante problema técnico de atelier investigar que coisa pode produzir um poeta de hoje com a linguagem de Gôngora”. Trocar por Sá de Miranda ou Camões.
  • Na propositiva acima, obviamente influem ressignificação e inovação, que se inserem numa tradição sem a ela obedecer integralmente ou fazer catequese: revolucionar.
  • …Descoberta que nas mãos de outro vira outra coisa, ambas originais em sua época, e de preferência “perenes”…
  • O “perene” na arte – lembrar dos apontamentos inconclusos de Marx (nos Grundrisse, escritos de gênio) sobre o fascínio “perene” da arte grega em nós e Shakespeare (até onde se sabe, infelizmente, ele não chegou a escrever essa parte ou se perdeu ou ainda não foi descoberta, apenas a anuncia, embora todo marxista saiba da sua paixão pela impactante peça Titus Andronicus e a cena sobre o poder do ouro/dinheiro, citada nos Manuscritos Econômico-Filosóficos e, décadas depois, no próprio livro primeiro de O Capital).
  • …Influi também o tema já superado entre forma e conteúdo (ou forma-conteúdo, ou ainda conteúdo-forma), que o próprio Lukács, admitindo que via o conteúdo como principal, em detrimento da técnica (quando seria mais correto encarar a dialética de ambos os termos), trata de tratar. Falsa dicotomia; relação dialética. Resgatar o que a semiótica (um dos capítulos de Semiótica e Literatura, de Décio Pignatari, exatamente acerca) pode contribuir para isso. E o pensamento certeiro de Maiakóvski a respeito.
  • O conflito entre Brecht e Lukács hoje, século 21, já que o segundo dos dois pensava numa continuação do realismo do século 19 para o 20, enquanto o primeiro enxergava defasagem no 19 e novas inserções no 20. A solução: diferentes públicos para diferentes apetites.
  • A contribuição dialética de Gramsci, a partir de Hegel (não sem Marx): dupla operação/estratégia: é preciso criar uma nova culturarte, seja como agitação ou antecipando a nova sociabilidade, e que só é plenamente possível a um status revolucionário se criticar a cultura vigente e extrair/conservar pontos positivos dela, por consequência, superando-a (= “síntese”).
  • Estética enquanto múltiplas determinações dos homens encarnados na arte…
  • Estética: menos legislação, mais observação/apresentação da estrutura interna duma obra artística…
  • Trata-se, antes, de decidir se é possível uma “estética” (ou Estética) hoje. E se o sinônimo de tal decisão/empreitada é legislar sobre arte. Não que não seja impossível, mas instigantes autores por vezes preferem outro termo — certamente mais aristotélico –, imediatamente ligado a uma ação ou relação bem mais concreta de fazer e práxis: ao invés de estética(s) — palavra de filósofos e não necessariamente de artistas –, poética(s)
  • Certa passagem de A Ideologia Alemã (Marx e Engels), refutando Max Stirner e seus equívocos acerca da propriedade privada, alerta sobre a mentalidade burguesa no tocante ao individualismo corriqueiro a respeito do artista criador (o exemplo dado é Rafael), costumeiramente tido como gênio solitário que leva todos os créditos, e lembra da enorme cadeia ou rede socioeconômica de pessoas — que antecede ou está presente no processo ou depois — de uma obra artística, sem a qual ela não existiria. Tal como a comida em nossa mesa, que não brotou do nada tampouco nela, muito menos no supermercado ou na feira. Outra passagem desse livro seminal, marxiano-engelsiano, trata, ainda que de maneira lateral, o fazer artístico por todos numa sociedade comunista em que a divisão/o antagonismo de classes foi devidamente abolida.
  • O ato de escrever e sua angústia, que não é de hoje, mas acrescenta-se à tal angústia-base a angústia da derrocada das ideologias (inclusive estéticas!) e a sensação (ao menos para aqueles que, como eu, seguem um percurso histórico) de que tudo já foi escrito (em forma-conteúdo): a insistência da inovação em face de um beco sem saída, e que tal inovação não vire solipsismo, mas, ao invés, arranque do branco do papel (ou de qualquer outra superfície) a exata palavra que possa nos “salvar” (?)…
  • A problemática do “romance” hoje, com ou sem proesia. Trata-se de decidir em minha obra se, neste caso, vale também a propositiva inicial do sangue novo introjetado num corpo (ou cadáver) antigo. (Sangue, ao invés de “roupagem nova”.)
  • Identificar, evitar, denunciar, extirpar, saber usar, pôr no lugar etc. os elementos fascistóides da linguagem. Ao contrário do que muito se pensa, o elemento fascistóide não é apenas militarismo, não são só palavras de ordem e comando, é, muitas vezes, bem mais sinuoso/ardiloso/corruptor do que isso. (E em que medida, na verdade, eram as simples palavras de ordem ou comando, bem antes disso, ancestrais?…) Diferenciação entre autoritarismo (que sabe onde pisa com o coturno) e fascismo (que, tal como disse Deleuze, é uma linha de morte de si e do outro).
  • Eu sou capaz de escrever linhas lindíssimas, de seivas que são entendidas antes de qualquer explicação junto ao pleno domínio da língua (eis o caráter significativo e enriquecedor duma proesia), porém os fantasmas vanguardistas me atordoam; súbito, no entanto, o treino em face de uma estética marxista exorciza de mim o abstracionismo (não é meio conservador?) ou a pura técnica (que não alcança o realismo), já datados também.
  • O realismo de cada tempo, inclusive deste, a partir do espelhamento do real através das obras de arte. Um pé atrás diante de tudo o que se afasta do real (irracionalismo).
  • Por que todo direitismo se afasta do real?!
  • Proesia não só em termos subjetivos, mas concretos – Galáxias, de Haroldo de Campos, teve “sacada” ainda hoje rara, já que escritores e poetas (não assim com os concretistas) geralmente nem preocupam com a materialidade da obra-livro: versos longos e edição com página obrigatoriamente pensada a partir do espaço de tais versos longos, de modo que quase pareçam, mesmo, linhas duma prosa (sem o ser).
  • A Poesia é resolvida com a inspiração, sobretudo quando se é poeta cultivado, e não qualquer escrivinhador; não assim com a prosa, que é como costurar (por isso devo muito à minha mãe costureira caseira meu ofício literário): na prosa, cose-se hoje e amanhã é preciso continuar de onde se parou, mesmo que não seja de onde se parou ontem.
  • Poetas são pest-sellers, enquanto há prosadores best-sellers, aliás, tais mais-vendidos são sempre em prosa. Entre outros motivos, porque a poesia corta o logos e não tem fim (quando se chega ao final, recomeça outra vez), enquanto a prosa, por sua própria estrutura interna, nos leva sempre a conclusões – assinale-se que a moldura ocidental não admite facilmente o que não tem explicação ou conclusão.
  • Proesia: poderosa indeterminação entre prosa e poesia, implosão de gêneros num jorro estilístico de signos carregados de significados ao máximo.
  • Proesia – que não seja mera masturbação, e sim sexo bom para as partes bissexuais homoeróticas.

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